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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

sessão coruja- CALCINHA DE VIDRO


Ela era uma na multidão feminina.
Há quem diga que a multidão era ela.
Conheci esta mulher perdida, vagando pelos trilhos...
Perdeu o trem, não viu a paisagem.
Na estação sem primavera... Nenhuma flor, nenhuma passagem.
Observei aquela mulher de estranha beleza,
Vi no seu rosto uma sutileza, porém o olhar era escuro, sem luz;
A boca entre aberta em lábios carmim e ancas volumosas; tão mortas!
Seu caminhar era pesado como se arrastasse o mundo.
Estendi-lhe a mão e pude sentir a frieza sem sangue.
Disse-me em tom baixo e casto, que fora vítima de engodo.
Sonhara em amar, desejar, se entregar ao prazer...Proibido.
Castrada no seu viver queria ser uma pedra preciosa, transparente...
Tornou-se uma luz guardada, como fosse a gema do ovo.
Num tom muito baixo, tanto quanto seu olhar, em transe, buscava um sentido.
Um apito ao longe gritava seu sofrer e lhe oferecia um vagão.
Um abrigo. Afastou-se de mim arrastando sua multidão infeliz e doente.
Rogava uma chance.
Eu soube que naquela estação ela vagava há anos vestida em "calcinha de vidro".
Só queria pegar o trem e seguir sua própria viagem, um mito!
A multidão de mulheres a perseguia e os homens fugiam.
Confusa, perdia o trem da liberdade e se encontrava só num trilho.
Seguia preciosa e transparente, vestida de vidro embaçado de falsa castidade.

Elaine Barnes
6/12/08

EIS!
Eis que apareço enfim,
Qual estrela que no coração brilha.
Eis que descubro a vida,
Num talento escancarado,
Belisco-me, Viva!
No mistério descobri segredos,
Num pulsar de vida,
Despi-me dos medos.
No fluir da veias vesti versos e sorrisos.
Eis que surjo do nada,
Reconheço a caminhada,
Entre refrões e narcisos.

Elaine Barnes 1996

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

sessãocoruja- SORRISO DO MAR


Por mais que eu me sinta injustiçada e agredida.
Por mais que eu tenha que me desgastar...
Por mais que eu tenha que matar um leão por dia...
Todo esse endurecimento desaparece no sorriso do mar.

Tem nele a paz que se encontra com a minha.
Tem ele a grandeza de minh`alma.
Tem a vida guardada nas profundezas,
No silêncio profundo da calma.

Essa imensidão de beleza,
Pra quem conto meus segredos...
Leva pra sua natureza,
Meus anseios e medos.

Seu sorriso vem nas ondas,
Na espuma sobre meus pés...
Conforta minhas dores,
Que se vão com as marés.


Sorriso de sal,
Que me faz tão bem;
Nas noites de lual...
Não abandona ninguém.


Elaine Barnes

26/12/08


DESFILE




Nasce quieta e serena,
Com ares de morena,
Deslizando num tapete bordado;
Num manto tímido e apertado.

Vai ganhando força no caminho;
Exuberante, cristalina,
A desenhar pedras...reluzindo,
Num espelho , seu destino.

Tão doce, revôlta e fria...
Abraça a margem com paixão,
Livre, solta e exibida...
Desce, escrevendo no chão.

A queda findando o desfile,
Coroa a senhora já grisalha,
Se desmancha em lágrimas no declive...
Explodindo em chuva de prata.

Elaine Barnes 1996

terça-feira, 10 de novembro de 2009

sessão coruja- VOZES DA MENTE

Deixem-me cá com meus demônios!
A combatê-los um a um;
A derrubá-los de seus pedestais...
A querer todos e nenhum.

Deixe-me cá no caminho,
a saber que não vou sozinho.
Nas sombras dos meus "ais",
Moram demônios, nada mais.

Em punho espada iminente,
Seguindo as vozes da mente,
Duelo num combate mudo,
A vencer invasores do meu mundo!

Nuvem de vagalumes, a acender e apagar!
Feito lamparinas de luar na madrugada nua,
Deixando aqui e acolá...
Um demônio esquecido na rua.

Deixe-me! Tal qual botão escondido,
Na roseira da madrugada;
A espera do alvorecer...
Para ofertar a flor solitária.

Sigo os vagalumes, a iluminar meu caminho.
Não há mais sombras, apenas o despertar na aurora fria.
Não sigo mais sozinho,
Vou de braços com a vida!
Elaine Barnes 30/08/1995


PEDRAS BRUTAS

Loucos do abismo, almas feridas.
Perdidos na inconsciência, sem aplausos da vida.
Vaias da carência, abandono da lucidez,
Ora sapiência, ora insensatez.
Quem poderá julgá-los, se todos nós somos um pouco?
E ao ignorá-los? Não seremos mais loucos?
Nos dementes disfarçados aplaudimos a sabedoria;
Nos curvamos enganados no que acreditamos um dia.
Serão eles; sementes plantadas na amargura?
Ou árvores com frutas ausentes perdidos na estrutura?
Talvez pedras brutas, atacando pra defender seu mundo imaginário,
Fechando em paredes a vida, escondidos atrás do muro .
Mergulhados em pânico profundo, alguém emergiu do lago.
Uma imagem refletiu-se no espelho e
Olhou sem reconhecer o companheiro.
Cospiu palavras num monólogo solitário, no eco da solidez.

- " Quem dera ser louco senhor!
Não sou nem um pouco, só estou num beco sem saída.
Bebi muito depressa a vida, que me causou essa embriaguêz!
Minh´alma está bêbada amigo! Só isso."

Elaine Barnes (Redação que fiz em 1994)

domingo, 8 de novembro de 2009

A QUATRO MÃOS

Esvaziei meu baú e encontrei sorrisos,
Estavam guardados por tanto tempo...
Alguns eram escancarados de felicidade,
Outros eram risinhos amarelos de saudade!

Fui guardando todos e esqueci,
Dei importância aos que não sorri,
Dos doces sorrisos eu me esqueci.
E no meu baú eu guardei tudo de mim.

De lá saíram os sorrisos das cirandas,
A alegria tão pura e ingênua das crianças...
Fotos de um amor que o tempo não amarelou,
Uma rosa seca que nunca se despetalou!

Da rosa, o tempo o perfume acabou,
Mas num frasco pequeno guardou a menina...
A menina que nem pensava em ser mulher!
Guardou o perfume sem se lembrar...
Que com o tempo o aroma termina!

E de dentro do baú ainda saíram outras alegrias,
Papeis amarelados rabiscados de poesias,
De alguém que se perdeu em mil sabores,
E se encontrou em amores versos e flores!

De alguém que no palco da vida não soube atuar,
Foi verdadeira demais na arte de amar!
E do baú ainda saíram outros sorrisos,
Algumas manhas e pequenos caprichos...

Um grito de amor, outro de liberdade,
Um grito de auto-estima de uma menina...
Que hoje é mulher,feita para a vida aceitar,
Cada gota de ensinamento na arte de amar!

Agora no baú não mais me debruço. Cresci!
Reviro mais um pouco e retiro retalhos de mim.
Esse baú não tem fim, um baú sem fundo,
Na realidade é minha vida, meu mundo.

Ainda tem espaços vazios dentro dele.
Vou preenchê-los com sabedoria e felicidade.
E nessa doce loucura de viver, serei humana,
Mesmo que a insensatez de viver me faça insana!

Não quero guardar nenhuma tristeza passada,
Quero juntar alegrias e folias, nunca melancolias!
Quero ser princesa, rainha, deusa ou meretriz,
Mas jamais, de forma alguma deixarei de ser feliz!
Esse é o encantamento de ser uma eterna aprendiz!


Sandra Botelho e Elaine Barnes
http://vidaseverdades.blogspot.com/
Site Olhares Fuing ideas foto SU&EMA

7/11/09

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

sessão coruja- O TILINTAR DAS CHAVES


Nada mais tenho a escrever, a relatar caminhando em uma folha.
É como se vasculhasse nos meus baús e não encontrasse mais nada além de velhas estórias.Todas sem graça.
É certo que alguns baús ainda estão fechados.
Quem sabe se eu experimentar todas as chaves do molho que trago nas mãos?
Não é possível que eu não tenha mais nenhuma notícia de mim!
Vasculhei nos meus baús abertos, remexi, li, escrevi...
Achei sorrisos, amor, infância, pureza... Rodei na ciranda e abri a mulher
Fiz crianças e brinquei de novo, felicidade verdadeira!
Relatei tantas estórias, vivi tantas memórias, das naves no espaço até o bem me quer!
Fechei vazios esses vasculhados baús então, que usei, vesti e adormeci.
A criança cresceu, a mulher se perdeu e o sonho morreu.
Agora só encontro mais chaves. Nada mais. Nenhuma notícia!
Nada a declarar a não ser que tenho chaves nas mãos.
Experimentar nos lugares certos.
Arrumei as gavetas, modifiquei a saleta, limpei cada canto.
Comprei enfeites e iluminei a árvore de Natal
Juntei as canetas, arrumei os papéis engoli meu pranto;
Pintei o quintal; cortei a grama e lavei as pedras com sal.
Esvaziei o porão...Silenciei.
Ouvi minha alma. Apenas o tilintar das chaves.

Elaine Barnes
5/12/08


SENTEI NAS PALAVRAS




Ah hoje estou assim...assim...
De meia lua. Minguada !
Meu corpo treme e sinto que é raiva.
Ah! Enfim desocupou um banco!
Queria tirar o tamanco...
Deixar as pernas jogadas!
Ai, preciso tanto de mim!
E tem tanta gente aqui...
Eu estou tão irritada!
Tem um cara dormindo ao meu lado,
O corpo todo relaxado...
E o meu todo travado...
Sentado nas palavras!
Que dia viu! Estou sem paciência!
Esse barulho tampando o túnel do meu ouvido,
lá dentro desesperado sacodindo meu grito...
No labirinto da inconsciência.
Duvido!
Nem sei se estou cheia ou vazia!
Acho que hoje estou andando no vácuo da fé.
Com raiva também desse esmalte velho no pé!
Engoli os "s"mesmo e daí? Eu tô uma azia!
Ah, enfim meu apito!
Quero sair desse ébano,
Esse metrô é um bandido;
Então....Abre-te Sézamo !

Elaine Barnes (chutando as letras)
10/12/08

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Sessaõ Coruja- CHUTANDO LATA


Vou por aí “chutando lata” como Osvaldo!
Na rua pessoas seguem seu caminho,
Enquanto eu chuto o destino...
Jogando mesmo para o alto!

Sei lá viu! Vou ou fico?
Dou bom dia ao vizinho,
Abro pra ele meu sorriso...
Sigo chutando lata. Descalço.
Vejo gente chutando o destino...
Dos outros!
Eu vou chutando o meu!
Quem sabe ele se incomoda?

Já pensou?
Vai que ele reclama,
E exclama - Qual é!
Chuta não Zé, senão...

Vai que me conta aonde essa lata irá!
Esse “senão” é tudo pra mim.
Vai que numa esquina, quiçá...
Numa avenida, o descubro enfim!

Sei lá! Quem sabe o destino,
Ta na ponta do meu pé!
Cuidado aí Zé! Chuta não!
Senão...A lata vira latão!

Sei lá, quem sabe meu destino,
Ta dentro da lata?
Olha aí, Zé Mané! Abre a lata!
Pois é. Vou por aí...Catando lata.
Abrindo, senão...

Elaine Barnes
10/01/09

FRUTA BICADA




Ah! Fala sério!
Vai me dizer que não me viu?
Olha pra mim!
Tira da boca esse assovio;
Baixa esse olhar de noite enluarada.

Fala sério!
Sai desse umbigo!
Nem percebe o incesto da minha língua,
Beijando-me o céu da boca de castigo?

Fala sério, insensível!
Estou sofrendo como fruta bicada.
Você é um pássaro muito terrível...
Então, voa com a asa quebrada!
Fala sério!

Elaine Barnes
11/12/08

domingo, 1 de novembro de 2009

RUBI





Naquela madrugada
A face corada
A boca beijada
Eram rubis
O olhar preguiçoso
Desabrochava como flores
As mãos macias e suadas
Na minha nuca coladas
Eram rubis
O vinho bebido na tua boca
A taça enlaçada em teus dedos
Teu peito abrigo dos meus cabelos
Era tudo que sonhei
Eram delicados rubis
A cama desarrumada
Sua voz sussurrada
Seu toque em mim
Um momento assim
A meia luz ofuscante
Simples e cintilante
Minha estrela amante
Meu brilho de rubi.

Elaine Barnes
30/10/2009



Sessão Coruja DANÇA DA LUA






Como fosse bailarina,
Dançando entre amores,
Brilhava em purpurina,
Enfeitiçando as noites.

Não estava sozinha,
Enfeitada de confetes e serpentina.
Reinando absoluta...
Como fosse bailarina.

Chega nas noites em silêncio,
Sempre jovem e admirada,
Como fosse dona do tempo...
A Bailarina moça, calada.

Dança com pés de vento,
Mas parece tão parada!
Somente o poeta a vê...
Nas noites que não dizem nada.

Buscando nela um bem querer,
Ao vê-la tão imaginária...
Declarando-se sem perceber... A bailarina,
Como fosse a mulher amada.

Elaine Barnes junho de 1997
(fotos site olhares e google)